Casa de vó

Domingo visitei minha avó. Fazia tempo que não visitava sua casa, desde a morte do meu avô. Na volta, já no carro, chorei de saudade. Saudade dele, saudade dela, saudade do tempo que eu era pequena e via aquele recanto com olhos de meninice, os mesmos olhos que acompanharam meu filho, o menino que não queria vir embora depois de um dia cheio.

Minha avó sempre foi exímia cozinheira, além de bem disposta e dedicada a agradar a todos pela boca. Em sua casa nunca faltou o pão de queijo mineiro, a broinha de fubá e o biscoito de polvilho assados na hora, acompanhados do café coado no coador de pano e o chazinho de erva doce. Além da boa prosa em volta da mesa e do afeto em forma de pudim de leite condensado, minha avó me ensinou muito pelo exemplo.

Ontem, em sua simplicidade carregada de sabedoria, disse que o coração enfraquece com a idade. Enfraquece de tanto sofrer. E arrematou dizendo que mesmo assim tinha alegria na vida e nas coisas de tanto amor.

Amor sem preconceito, sem inveja, sem dúvida. Amor sem medo de tocar, de dizer que ama, de abraçar e segurar minhas mãos frias entre suas mãos quentes para me aquecer. Amor alegre, de riso fácil, com cheiro de manteiga e farinha; amor disposto e disponível, no entusiasmo das aulas de tricô, no feitio das bonecas de pano, na hidroginástica às terças e musculação às quartas. Amor na beleza singela que já foi perfeita, no dom de cuidar e servir.

Casa de vó é um monte de coisas mas principalmente um recanto de saudades, de saber que ali o tempo é escasso e passa depressa, de entender que nesse refúgio os momentos devem ser sugados até a última gota, porque a lembrança do quintal, do alpendre florido de orquídeas e da TV sintonizada nos canais tradicionais é muito passageira, ainda que eterna.


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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

5 COMENTÁRIOS

  1. serra, serra, "serra-a-dor". meu avô me balançava e cantava pra mim. de cabeça pra baixo eu sorria e pedia de novo. hj faço com meu filho, e ele também pede de novo. será que isso não vai ter fim?

  2. vocês tem sorte pq por um lado eu nao sei o que é ter esse cuidado e carinho de vó. Minha mae nao se entende c minha avó e nosso relacionamento. ficou meio frio. Nao me lembro.de ser bem querida na casa dela…

  3. Lindo lendo senti meus olhos encher d agua lembrei muito da minha vizinha linda carinhosa sempre com a mão d farinha por estar preparando alguma coisa que dias encantadores deitar na sua cama cheirosa o cheiro q so tinha na sua cama acordar com ela cantando ao estender a roupa no varal da sua risada nossa q falta ela faz na minha vida

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