Colcha de retalhos

 (Crônica também publicada na revista literária Benfazeja)

Terminei a postagem anterior comparando nossa trajetória a uma enorme colcha de retalhos e volto ao tema por considerar o amor e os relacionamentos partes da mesma estrutura, um alinhamento de muitos retalhos que compõem cada um de nós.

Se metaforicamente somos colchas de retalhos, como chegar ao próximo dia 12 de junho acreditando que seremos vistos além de nossos remendinhos e paralelamente, que encontraremos alguém coerente no equilíbrio entre retalhos intactos e gastos, de cores vivas ou desbotadas, firmes ou totalmente descosturados? Como encontrar alguém que se mostre por inteiro, sem ocultar ou disfarçar nada? Como reconhecer a colcha certa em meio a tanta pirataria?

É muito difícil definir nossas escolhas com base nas primeiras impressões.  No início todas as colchas são belas e apaixonantes pois encontram-se caprichosamente dobradas e alinhadas. Compactas, guardam em seu interior um lado que só poderá ser descoberto com o tempo.

Aqueles que têm o espírito aberto e desejam viver suas histórias com paciência e disposição conseguem aceitar o que esteve camuflado_um furinho aqui, uma costura solta ali_ e se encantam com a harmonia do conjunto;

Outros, julgando-se retalhos perfeitos e intactos, irão se sentir trapaceados diante de ranhuras no tecido ou má combinação de fazendas. Num mundo onde tudo é rapidamente descartado e substituído, um simples fio puxado ou desgaste no acabamento bastam para a reposição.

Há aqueles que acreditam estar numa missão, são os fiéis costureiros da colcha desfacelada e se empenham nessa jornada, sacrificando suas vidas em prol da recuperação da colcha esfarrapada. Esquecem que ninguém pode consertar ninguém… Remendos fazem parte do pacote e não dá para transformar uma colcha de retalhos num edredom dupla face;

Alguns se acham a última colcha matelassê do pedaço. Não conseguem encontrar um par à altura, pois imaginam ser merecedores de no mínimo um cobertor tipo exportação, cem por cento anti alérgico, aveludado e de aparência requintada. E seguem assim, desprezando radicalmente aqueles que não se enquadram em seus quesitos. Rotulam as pobres mantinhas, comparando-as a ponchos… inconscientes de que no fim estaremos todos corroídos pelas traças e desbotados pelo tempo, aquele que não poupa ninguém.

Há também os que nunca são escolhidos, passam a vida inteira empacotados ao contrário, deixando à mostra seus defeitinhos e escondendo o que têm de melhor. Não têm a sorte nem o tempo a seu favor, o tempo que permite nos mostrarmos por inteiro.

Não adianta cobiçar a colcha do próximo. É ilusão achar que a colcha do vizinho guarda mais qualidades que a nossa. Ninguém garante que lá no meio não existam destroços e muita fuligem… Cuide do que é seu e se quiser mudar o mundo comece remendando a si mesmo…

E se… depois de muitos anos amando uma colchinha sob medida, nos depararmos com um estrago enorme, um rombo ou uma corrosão no centro do que acreditávamos ser a colcha perfeita? O que fazer numa hora dessas?  Entender que somos livres e a escolha é nossa, aprendendo que não existem colchas perfeitas e edredons super king só existem nos contos de fadas…

Tem gente que não suporta ver o próprio estrago. São os que passam a vida inteira se mostrando por partes, só as melhores. Não aprenderam a confiar, a relaxar diante de suas imperfeições e combinações esdrúxulas.  Porém, pode ser que lá na frente descubram que onde havia uma manchinha agora reina uma nódoa gigantesca justamente porque não arejou. Abafada, contaminou tudo ao redor, como bolor… Se tiver sorte, um pouquinho de claridade e muito perdão resolvem.

Descobrimos que aquilo que sentimos é amor quando olhamos a colcha cem por cento aberta e apesar dos tecidos que não combinam, dos rasgos que insistem em abrir, do desbotamento e da costura que se desfaz, gostamos e aceitamos o que vemos sem a necessidade de buscar nossas caixinhas de costura; é quando nos habituamos ao conforto daquele desgaste, ao cheiro daquele bolorzinho, à visão daquela manchinha e aquilo não nos incomoda mais; ao contrário, traz alento. É quando enfim sentimo-nos em casa e nos permitimos ser vistos por inteiro também.

FELIZ DIA DOS NAMORADOS!

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

5 COMENTÁRIOS

  1. Adorei a metafora da colcha de retalhos. Sou "quilteira" e sei muito bem que quando costuramos os retalhos…pensamos e pensammos e costuramos pensamentos e afetos. Muito lindo o que vc escreveu.

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